Alcançando os Céus é o primeiro de uma série de contos que Pet Bhazalith está escrevendo para figurarem as páginas do mais ambicioso projeto do grupo, um livro de rpg sobre o Japão medieval. Este micro conto fala sobre religião e filosofia Zen.
Esperamos que gostem.
Alcançando os Céus
Todos os dias eu acordava muito cedo, bem antes do sol se levantar eu já estava de pé e realizava os exercícios propostos pelo sensei. Ele era muito exigente quanto a isso e não poderia faltar uma flexão que fosse, os katas também eram repetidos exaustivamente. Meu mestre não possuía outros discípulos além de mim e nos situávamos longe demais de qualquer cidade ou povoado.
Mas eu tinha uma missão, um objetivo.
Após mais uma longa manhã de treinos, um dos sacerdotes que viviam no templo em que eu treinava veio ter comigo em particular. Disse que tinha coisas a conversar e que conversaríamos enquanto estivéssemos pescando no lago próximo. Foi uma caminhada agradável pelos bosques repletos de árvores singelas, que durante esta estação se despiam de sua folhas. O monge, de nome Suichi era quase tão jovem quanto eu, mas era profundo conhecedor da filosofia zen. Então ele me disse: “Veja estas folhas, é chegado o momento em que elas se despedem de seu mundo, a árvore. Você vê tristeza nelas?”
Eu pensei por alguns instantes e fui direto em minha resposta: Não.
Ele me fitou por alguns instantes esboçou um tímido sorriso antes de prosseguir dizendo: “Mesmo no momento de sua partida elas mantém sua beleza e dignidade. O espetáculo de sua queda, que apreciamos no outono é algo único, em que mesmo na partida não há tristeza, por que ela cumpriu sua missão. Deixou a árvore mais bela e gerou os frutos que alimentaram muitos homens.”
Eu o olhava intrigado tentando compreender a razão daquele colóquio, mas nada vinha em minha mente que não confusão e sentido de perda. Atravessamos estreita ponte e chegamos ao lago onde pequena embarcação nos aguardava.
Suichi me passou uma das varas simples usadas para pescar e antes que pudesse pegá-las ele segurou minhas mãos dizendo: “Não há tristeza pois outras folhas virão para desempenhar o mesmo papel com a mesma capacidade. Você não sente falta de seu lar Kurono?”
O sentimento de perda então se fez mais forte e presente, algo mordeu minha isca mas as coisas transcorreram de forma tão rápida que não me ative aos detalhes, tudo que pensava era em rever o grande mestre. Suichi não me acompanhou no caminho de retorno ao templo, esse era um caminho que eu trilharia sozinho.
Quando lhe dei as costas para me por à caminho ele me disse: “A verdade que tanto anseia estará a sua espera.”
Próximo das escadarias fui abordado por um jovem, ele me trazia uma carta com notícias de meu povoado, algo que há muitos meses já não recebia. O olhei de cima a baixo analisando-o e algo naquele rapaz me era familiar. Talvez o brilho nos olhos, talvez o modo que ele se expressava... Contudo meu sensei me aguardava e tinha o pressentimento que ele não esperaria muito. Pedi então que o mensageiro me aguardasse nas escadarias enquanto me dirigia às pressas ao encontro de meu sensei.
Cheguei de súbito ao quarto do sensei e ele estava cercado por monges. Aproximei-me dele tanto quanto pude. Meu senhor pediu que os outros monges se afastassem e me fui na direção dele prontamente.
Ele então me disse: “Kurono entenda de uma vez... A verdade que procura esteve com você todo este tempo...”
Notei a grande dificuldade que ele tinha em falar e me abeirei de seu leito para que pudesse lhe ouvir melhor.
O sensei prosseguiu dizendo: “O mensageiro de seu povoado lhe alcançou?”
Respondi positivamente acenando com a cabeça.
“Enquanto você esteve aqui, todo e qualquer contato com o mundo exterior lhe foi privado, para que se mantivesse sereno o suficiente para se afastar das distrações. Contudo, lhe asseguro, que se tornou um homem deveras sereno, mas para alcançar o paraíso isto não basta. Para alcançar o paraíso você deve se manter sereno o suficiente para não ser pego pelas distrações, e distraído o suficiente para não ser absorvido pela serenidade, esta é a verdade que procuravas, agora vá e retorne ao seu povo.”
No dia seguinte auxiliei no funeral de meu sensei e seguindo o mensageiro, retornei ao meu povoado para participar dos ritos fúnebres de minha mãe. Ao retornar ao templo, eu era agora o senhor do local e trouxera comigo o jovem mensageiro que agora era o meu discípulo, e esta, foi a primeira lição que lhe ensinei.

